A hora certa de agir

fev 27, 2014 Comente por Public First Class

Administrador nato, Armenio Mendes é o mais importante empresário da Baixada Santista. Com criatividade e, acima de tudo, sabendo transformar oportunidades em êxito, o empresário construiu mais do que apartamentos e shoppings: ele edificou sonhos e contribuiu em grande porção para o desenvolvimento de Santos.

Por Guilherme Zanette
Fotos João Mendes

Há uma sabedoria popular que costuma expressar com clareza a guinada de 360º na vida de alguns empresários. Ela sentencia que “um cavalo passa no portão de cada um apenas uma vez na vida; e você tem de montar nele, se não ele vai embora”. E é dessa forma que Armenio Mendes, o mais importante empreendedor santista,enxerga sua evolução como homem de negócios.Com a serenidade de quem soube aproveitar o momento certo para montar o cavalo, ele fala com orgulho e detalhamento do planejamento preparado para os próximos dez anos de investimentos em Santos por meio do Grupo Mendes, seu conglomerado de empresas que atuam nos ramos de construção civil, entretenimento e hotelaria. “Mas não estamos presos a esse planejamento. A evolução do mundo exige alterações. O que está nele é o que, no mínimo,vamos fazer para a próxima década”, pondera.

Nascido em Portugal, mais especificamente na freguesia de Chão de Couce, Mendes demonstra desde muito cedo uma aproximação ímpar com o pensamento empreendedor. Ele relembra que,quando adolescente, na faixa dos 13 anos, começou a trabalhar, ainda em sua cidade natal, em uma cerâmica para operar uma máquina de fazer tijolos e quis quebrar alguns paradigmas. “Eu chego lá e tinha três garotos a trabalhar com a máquina; disse ao dono: ‘Tem um aqui a mais’. E pedi para trabalhar somente em dois e ele comentou que não podia perder a produção de 6.000 tijolos por dia, mas aceitou. Começamos e passamos a fabricar 6.500 tijolos por dia.”

Mas essa é apenas uma passagem de sua história de sucesso, que começou a ser melhor desenhada quando ele saiu de seu país de origem, única e exclusivamente para não ter de servir ao exército num momento em que Portugal enfrentava uma ditadura. “Eu estava com 18 para 19 anos e era a idade limite que eu teria autorização para sair do país. No ano seguinte, teria de servir”, destaca, explicando que a época era de guerra nas colônias portuguesas.“Os meus dois melhores amigos morreram na guerra. Sempre fui um homem de paz,então, pensei em ir embora para qualquer país do mundo. E, naquela época, o imigrante só podia voltar a Portugal para ficar 90 dias. Se ele ficasse mais que isso,teria de servir o regime militar. Então, você ia embora certo de que não iria voltar.”

Com ajuda de dois portugueses que tinham uma padaria em São Paulo, ele veio ao Brasil e foi direto para Vicente de Carvalho (distrito do Guarujá), onde morava um de seus tios. Lá,surgiram as primeiras oportunidades profissionais.“Comecei a trabalhar em um estaleiro naval,fabricando barco de pescas, em uma época em que o Brasil estava em greve e eu nem sabia o que era isso. Eu vivi numa aldeia, fui educado sabendo que,para ter meu dinheiro no final do mês, eu precisava trabalhar. Minha formação era essa, ninguém me falou um dia que eu tinha direitos.” Em muitos dias,o estaleiro tinha apenas Mendes e os dois filhos do dono trabalhando.

De acordo com o empresário, no começo foi angustiante viver em outro país. “A vida de imigrante é complicada. Eu não queria nem namorar aqui. Quando você imigra, você sabe que uma hora vai querer voltar, porque a sua terra é a melhor do mundo, mesmo não sendo. O sofrimento do imigrante quando ele chega em outra terra é uma coisa que só quem passa por isso sabe o valor”, explica. “Se me dissessem que eu iria ficar aqui para o resto da vida,acho que eu morria de saudade.”

Mas ele não ficava parado e, nas horas vagas,trabalhava como marceneiro. “Acabei juntando esse dinheiro e tirei minha carta de condução e comprei um caminhão.” A ideia do caminhão não deu certo porque a manutenção do veículo acabou se tornando onerosa demais. “E todo final de semana tinha uma quebra no caminhão.”

Até esse momento, Mendes parecia observar de longe o cavalo, certo de que ele passaria por sua porta. Criou, então,uma bicicletaria, no caminho do Porto, da refinaria e da Cosipa (atual Usiminas). Embora ela não tenha sido a única oficina de bicicletas da rua, o empresário usou sua criatividade para que a empresa fosse diferente: foi a primeira a operar por 24 horas e explorar os outros turnos, também muito frequentados por trabalhadores do período noturno. Mas as inovações não pararam por aí. Mendes, percebendo uma carência grande para atender os ciclistas no quesito segurança, já que muitas bicicletas eram roubadas, criou um estacionamento para elas. “Era um empreendimento simples, com custo baixo(aluguel e um funcionário) e que dava mais resultado que a oficina.”

Pouco tempo depois, ficou sabendo que o terreno em frente à bicicletaria seria colocado a venda. Decidiu falar com dois amigos que já atuavam no ramo da construção civil para ver se tinham interesse. “Eles disseram que não queriam comprar, mas se fosse feito área construída topariam. Área construída, no caso, eles dariam uma parte da construção e o dono daria o terreno.” Então, ele intermediou a pro postados construtores com o dono, que aceitou. “Como não precisava investir dinheiro, eu quis ser sócio e avisei aos meus dois amigos que o dono só faria área construída com a condição de eu ser sócio. Eeles aceitaram”. Com o projeto finalizado de sete lojas e quatro apartamentos — e o sucesso nas vendas —, ele percebeu que esse era um ramo promissor e decidiu investir. É aqui o momento em que ele monta o cavalo e não sai mais dele. “Fui aproveitando todas as oportunidades que foram surgindo ao longo da vida. Vim ao Brasil, trabalhei,criei a bicicletaria e parti para a construção.”

Alguns anos depois, em uma de suas viagens para Portugal, Mendes foi mais uma vez certeiro (dessa vez na vida pessoal). “Fui para Portugal sete anos depois de chegar aqui pela primeira vez e conheci minha mulher. E ela fez uma aventura que acho que pouca gente faz”, relembra, explicando que conheceu Celeste e ficou lá apenas um mês. “E vim embora. Naquele tempo não tinha nem telefone, era carta. Fiquei me correspondendo com ela; e um ano depois fiquei lá mais um mês e me casei. E ela tinha 18 quando conheci e 19 quando me casei. Então, ela largar tudo e sair com 19 anos de idade é outra aventura também. Ejá estou casado há 42 anos”, orgulha-se,da mesma forma em que é enfático ao falar dela: “Celeste era a portuguesa mais bonita que tinha lá”.

Sua empresa foi crescendo e, com destreza, construiu empreendimentos cada vez maiores, desde apartamentos luxuosos a shoppings, centro de convenção, balada e bar. O Grupo Mendes, que carrega seu nome — e ainda é proprietário da rádio Jovem Pan na Baixada Santista —, virou símbolo de prestígio. E uma das razões para esse sucesso tem a ver com a forma de Mendes conduzir sua empresa, baseadona fórmula que coloca no mesmo grau dei importância: o fechamento do negócio e a entrega do produto. “Um dia desses, voltei de Portugal às pressas, para entregar o mais recente empreendimento, o Ville de France Residence. E no discurso eu comentei que certamente eu sou um homem rico em amigos, porque tinha lá 400 pessoas na entrega. E eu não podia entregar os apartamentos sem estar lá para ver a satisfação deles. Nós ajudamos os outros a realizar os sonhos. Eu disse: ‘Se hoje eu não estivesse aqui concretizando seu sonho, você seria o consumidor mais decepcionado’”, completa. Mesmo após a construção de inúmeros empreendimentos, shoppings, centro de convenções, Mendes continua visitando suas obras todos os dias. “Continuo sujando meus sapatos todos os dias, porque eu quero ver a satisfação no rosto das pessoas. Se você não tiver capacidade de fazer, você não tem sucesso. Você pode ter uma empresa à distância, mas ela não pode ser uma construtora, porque esse é um processo artesanal. Não é uma fábrica”, conclui.

Estar sempre por perto também ajuda em sua forma de liderar, que é estruturada na tomada de decisões. “Eu falo muito para os meus filhos: nunca fique em cima do muro, tome sempre decisão. Quem ganha uma guerra é o soldado, mas quem comanda esse batalhão é o comandante.Você não pode falar o que você não pensa. Um líder responsável é isso”, analisa, concluindo que liderança não se impõe a ninguém. “Quando você está a fim de tomar uma decisão, e já sabe oque vai fazer, nunca faça uma reunião, porque você humilha as pessoas. Sempre que convoco uma reunião, faço isso para respeitar o consenso. Líder é aquele que ouve, que põe em prática.”

Com mais de mil funcionários, Mendes diz considerar todos como amigos. “Mas eles sabem da minha responsabilidade com meu cliente e eu os conduzo a viver esse pensamento. Outro dia eu fiz uma pergunta para o meu filho: ‘quem é o mais importante da empresa?’. Ele respondeu dizendo que era eu. E eu expliquei que, na verdade, o mais importante não existe. Temos todos a mesma importância e, quando a luz está queimada, o mais importante é o trocador da lâmpada naquele momento”, ensina.

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