Carlos Ferreirinha: Um Luxo

mar 29, 2011 Comente por Public First Class

Quando o assunto é luxo, as luzes se voltam para ele e com sábias palavras, discorre sobre o tema, assim como um ilusionista domina sua arte.

Aos 40 anos Carlos Ferreirinha tornou-se um empresário e executivo de sucesso, mas antes de tudo, coloca família e amigos sempre à frente. Dono de um semblante sério, Ferreirinha encara a vida com muita humildade e diz gostar das coisas simples e reais que a vida proporciona. Presidente da MCF Consultoria e Conhecimento, Ferreirinha, é Formado em administração de empresas pela faculdade Cândido Mendes e aos 30 anos, já era presidente da Louis Vuitton.

Em uma tarde ensolarada, em São Paulo. Ele abriu as portas da MCF, e tivemos com ele um envolvente bate-papo.

Public First Class – Como se deu seu interesse pelo mercado do luxo?

Carlos Ferreirinha – Não posso mentir. Não existia sonho nem vontade. A EDS, empresa que fiquei oito anos, buscava uma diferenciação dentro de estratégias especiais. Então, eu sempre digo que lá foi minha escola, pois ela desenvolvia um trabalho muito singular. Depois surgiu a Louis Vuitton, que é uma empresa muito profissionalizada e que só abordava o tema luxo, que é a essência dela de uma forma muito estruturada. Entrei lá aos 26 anos e aos 30 assumi a presidência. Entrei na Louis Vuitton exatamente no momento que a empresa planejava todo o seu futuro, seu conhecimento, sua mudança e isso acabou sendo muito oportuno. Eu não saí de lá para abrir minha empresa, eu saí porque já faziam sete anos e estava na hora de buscar outras alternativas.

PFC – A MCF é a primeira consultoria da América Latina voltada para o mercado do luxo, em que momento teve essa sacada, de perceber que o mercado precisava disso?

CF – Foi exatamente lá atrás, quando na realidade eu abri a MCF para emitir nota fiscal há oito anos. Quando eu fiz a prestação de serviço para a ABIT (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e Confecção). Alguns amigos e empresários passaram a me chamar para conversar sobre o mercado de luxo, foi quando eu identifiquei que talvez fosse uma oportunidade de expandir esse conhecimento eu tinha. Aí sim eu fui oportunista de enxergar isso, e construí uma empresa que mais do que ser a pioneira, temos conosco a liderança dentro dessa atividade.

PFC – O que a MCF realmente faz?

CF – Somos uma empresa de consultoria tradicional. A diferença é que nós possuímos um olhar de especialização. Trabalhamos os princípios da gestão e da inovação da atividade do luxo. Temos uma área estratégica de consultoria, temos uma área institucional onde o ATUALUXO é feito, onde também trabalhamos o conhecimento, artigos, parcerias, conferências, e também temos uma área de Academia do Conhecimento, que costumo dizer que é o como fazer, então

nós traduzimos e utilizamos como ferramenta de gestão estratégica.

PFC – Como se define o que é luxo?

CF – É o comprometimento total com a excelência, são produtos e serviços que alcançam um patamar de nobreza sem concessões. São produtos impregnados de símbolos, de história, de tradição e de detalhes.

PFC – Luxo é necessário?

CF – Respondendo pela forma racional, não é necessário. Se fosse seria uma loucura. Mas é indispensável, porque faz parte da construção humana. Todos nós buscamos e estamos dispostos a nos aventurar por um fundo emocional. O ser humano busca realmente acessar aquilo que tenha alguma coisa diferente. É impossível não acreditar numa associação do consumo, do especial, do raro, do exclusivo, da forma que a nossa sociedade está constituída e buscando sempre uma diferenciação.

PFC – Quais são os segmentos que mais se destacam dentro da atividade do luxo?

CF - Atividades de moda, perfumaria e cosméticos, carros, imóveis, acessórios, calçados, bebidas e hotelaria são alguns dos segmentos que traduzem a atividade como um todo. Na verdade, o luxo sempre esteve muito associado à moda, mas é uma visão que precisa de uma evolução. A moda é muito importante, mas não necessariamente é ela que define a atividade do luxo.

PFC – Quais marcas representam melhor em sua opinião esse mercado?

CF – Louis Vuitton, Montblanc, Ferrari, Chocolat du Jour e H.Stern.

PFC – Quem consome luxo é quem aspira. Assim, podemos afirmar que o luxo é acessível para qualquer classe social?

CF – Assim, a ferramenta de gestão do luxo pode ser utilizada por qualquer empresa, por qualquer marca, independente do grau de acessibilidade. Mas nem todo mundo pode ser luxo, nem todo mundo deveria ser, nem todo mundo tem a condição. Mas todos podem aprender com a atividade e como fazer diferente. Todas essas marcas estão disponíveis para qualquer um, o que muda, é a possibilidade do acesso financeiro.

PFC – Você já presenciou alguma extravagância?

CF – Ah sim muitas! Faz parte da vida. Extravagância é um dos elementos fundamentais dentro da atividade do luxo. Sempre terá o indivíduo que vai querer a Ferrari com pedras preciosas no volante, outro que vai pedir a marca tal para fazer uma bolsa super especial, com couro de crocodilo da Tailândia. Então essas extravagâncias são ilimitadas. Elas fazem parte e são fundamentais.

PFC – E você, já fez algumas?

CF – Eu não sou de fazer extravagâncias de consumo físico. Alguns shows internacionais, restaurantes, na época do CD, eu não media esforços para comprar edição especial de algo que eu gostasse.

PFC – Você é um consumidor ou apenas um estudioso do luxo?

CF – Eu sou um especialista. No dia em que eu passar a ser um consumidor, talvez eu não possa nem ser mais um especialista, senão eu perco minha noção de parâmetros. Preciso estar sempre ligado nas formas de estratégias. Eu não sou vacinado em relação a isso, muito pelo contrário, eu tenho meus consumos de luxo, mas eu não sou esse público consumidor.

PFC – Mas não te atrai?

CF – Claro que sim. Me atrai muito. Eu realizo alguns deles, mas eu não sou um consumidor voraz. Sou um indivíduo que analisa isso de forma estratégica e mercadológica.

PFC – Você acredita que se passar a ser um consumidor, tira sua credibilidade?

CF – Não, de maneira nenhuma. Não é que eu acredito que tire a credibilidade, mas o dia em que eu passar a ser percebido por essas marcas como o consumidor, mudo de papel. Eu preciso ser percebido por eles como um especialista.

PFC – Há 20 anos que está na posição de liderança. Como é liderar pessoas?

CF – Acho que é o maior desafio que existe. Liderar pessoas; não chefiá-las. Porque chefiá-las eu acho uma das tarefas mais simples. Liderança é inspiração, é fazer com que as pessoas acreditem em você. Como líder você estimula, você inspira, você motiva.

PFC – Você é muito regrado com a sua vida?

CF – Eu sou muito simples, não acho que sou regrado, mas sou totalmente emocional. Sempre que percebo que estou sendo muito estimulado pela aventura, das percepções, da vaidade e do status, vou para São Gonçalo onde minha família mora até hoje; ando de ônibus e saio com meus afilhados. E ali percebo que aquilo sim é real. Aquela é a vida real, e a minha profissão é uma vida passageira porque isso não é quem eu sou, eu não tenho patrimônios. Então eu não sei se eu sou regrado com a minha vida, talvez eu não seja, mas eu tentei pautar a minha vida de uma forma real, tenho uma série de dificuldades, uma série de obstáculos, tenho dificuldade de encontrar um equilíbrio maior entre vida pessoal e vida profissional, porque a MCF é tudo o que eu tenho, os meus funcionários são a minha vida. Às vezes as pessoas falam “mas você trabalha demais”, mas é a minha vida eu não tenho renda de nenhum outro lugar.

PFC – Você começou a trabalhar muito cedo, não é mesmo? Aos nove anos no bar do seu pai…

CF – Aos 9 anos de idade, exatamente isso. Venho de uma família muito simples, de muitas limitações, mas com muita exigência. Família portuguesa que só sabiam reconhecer o valor da educação, pelo trabalho. Sou de uma família onde a maioria é menina, que são minhas três irmãs. Meu pai tinha comigo muita disciplina,então desde cedo eu tinha que trabalhar no bar dele. Isso determinou muito quem eu sou hoje. Natal e Ano Novo sempre trabalhando, então isso acabou virando um valor. Não quer dizer que a gente tenha que trabalhar dessa forma, mas eu me disciplinei a ser um indivíduo pautado por isso.

PFC – E hoje como sua família vê a sua trajetória?

CF – Olha, eu tenho uma relação muito forte com a minha família, nós somos muito ligados; eu minhas irmãs, minha mãe… Na verdade, aquilo que eu conquistei profissionalmente não é aquilo que me fez pessoalmente. Eu posso ter alcançado a presidência da Louis Vuitton, posso ser hoje um executivo, empresário, um formador de opinião respeitado… Mas minha família, que continua morando em São Gonçalo, e que continuam com determinado limite de acesso, para eles pouco importa, e para os meus amigos também. São eles que fazem sentido na minha vida. Não é isso que determina quem você é. Amanhã, se eu não tiver mais a minha empresa, se eu não tiver em uma posição executiva, não muda nada para meus amigos e para minha família. O que importa mesmo é onde estão as coisas reais!

FC – A impressão é que você dá valores para as coisas simples da vida…

CF – Dou sim, porque eu acho que é isso que faz a diferença. Recentemente tive que responder a um pingue-pongue e uma das perguntas era: qual é o seu sonho de consumo? Eu tenho muita dificuldade para dizer, porque eu não desenvolvi esse sonho de consumo na minha cabeça. Eu tinha um grande sonho que era levar a minha família à Disney, e levei há dois anos.

PFC – Você acredita em sorte?

CF – Sorte? Nem sei o que é isso (risos). Porque eu acho que sorte é você ganhar as coisas do nada. É colocar a mão dentro de um saco e sair seu nome e você ganhar um carro. Eu nunca ganhei nada na minha vida. Nunca fui colocado dentro de uma posiçãoprofissional porque alguém me colocou. Basicamente todas as coisas que

eu tenho e que conquistei, tive que passar, tive que ser testado. Não tenho um sobrenome de família poderosa que me deu possibilidades profissionais ou sociais. Eu sou um indivíduo místico, de formação católica, mas acredito em qualquer um que lê a mão, que joga tarô. Para mim colocou um turbante eu já acredito (risos). Nessa sorte eu acredito.

PFC – Como a crise tem afetado o mercado de luxo?

CF – Tem afetado seriamente, há um profundo impacto dentro da atividade. É um mercado de tomada de decisão emocional, o indivíduo pára de consumir aquilo que é supérfluo. Em especial essa crise, pegou muito de surpresa essas pessoas de consumo absoluto. A atividade do luxo, depois desses 25 anos pela primeira vez, passará por uma situação de não crescimento. Terá que aprender novamente a lidar dentro de um mercado onde os próprios custos terão que ser revistos. Precisará de disciplina e gestão financeira dentro da atividade do luxo. É uma crise de proporções sérias. O Brasil deve ter em torno de 8 % de crescimento, o que é ainda um crescimento extraordinário.

PFC – Quanto fatura essa atividade no Brasil e no mundo?

CF – Em 2008 US$ 5,99 bilhões, e cresceu 12,5% em relação a 2007, com uma média de crescimento em 2008 de 12,5% e com expectativa de 8% esse ano. E no mundo fatura aproximadamente de 380 a 450 bilhões de dólares.

PFC – Você acredita que o Brasil é um mercado promissor dentro dessa atividade?

CF – Eu acredito que temos a condição de dobrar o que temos hoje. E pra isso nos temos que desenvolver outras regiões de consumo. Santos, interior de São Paulo, Nordeste, Norte, pois ainda somos um mercado pequeno e muito concentrado em São Paulo e Rio de Janeiro.

PFC – Para finalizar, tem alguma previsão para o lançamento do seu livro “O Negócio do luxo do desejo ao consumo”?

CF – A gente fechou um contrato com a Ediouro e estou muito feliz com isso. Não sei se sairá esse ano, pois ainda está em um processo de construção e assim que sair, será uma grande surpresa. Talvez no segundo semestre ou no início de 2010. O livro está basicamente pronto, mas eu olho e não estou satisfeito ainda.

PING PONG

Ferreirinha por Ferreirinha: um indivíduo de valores reais e simples

Amigos: minha família, minha empregada doméstica, meus amigos, e meus funcionários

Um livro: Hotel Ritz e O vestígio da Alma

Um filme: Sociedade dos Poetas Mortos e Em algum lugar do passado

Um sonho realizado: Levar minha família à Disney

Um sonho a se realizar: Em breve, levar minha família à Portugal

Uma música: Tempo Perdido – Legião Urbana

Um ator: Selton Melo

Uma atriz: Meryl Streep

Medo: não conseguir ajudar quem está próximo de mim

Cheiro: a comida da minha empregada, a Dina que está comigo há 14 anos

Ama: minha vida

Odeia: tenho um pouco de asco dessa estrutura política que foi montada no Brasil. É um dos poucos lugares no mundo que eu não vejo a política trabalhando totalmente a favor do desenvolvimento.

Horas vagas: cinema. Eu amo!

Uma pessoa First Class: Tânia Paris. Foi a pessoa que mais me inspirou profissionalmente. Foi a pessoa que me trouxe de volta dos EUA para trabalhar e até hoje é alguém que me inspira muito. É uma amiga muito verdadeira, muito coerente e harmoniosa.

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